Neste caso temos Maria representando o aspecto feminino e Marta o masculino. (Lembre-se de que não estamos nos referindo aos papéis do homem e da mulher na vida diária e sim no seu aspecto figurativo em relação à igreja e ao plano de Deus na história.)

Este é um drama de duas cenas. Na primeira (Lc 10.38-42), vemos Maria sentada aos pés de Jesus, ouvindo suas palavras, e Marta agitada com o serviço da casa. Uma está voltada ao relacionamento e a outra ao serviço. Como mencionamos no início, estamos identificando a função masculina com o aspecto objetivo e pragmático de executar projetos e serviços e a função feminina com o aspecto subjetivo e emotivo de desenvolver relacionamento e comunhão. Nesta primeira cena, vemos Marta querendo convencer Jesus a forçar sua irmã a entrar no mesmo ativismo em que ela se encontra. Jesus responde dizendo que Maria escolheu a boa parte que não lhe seria tirada. Descobrimos aqui novamente a prioridade do relacionamento sobre o serviço. Somente saberemos como fazer o serviço adequadamente, ou até mesmo se é preciso fazê-lo, se dermos primeiro lugar ao relacionamento.

Na segunda cena (Jo 11.1-44), vemos a morte de Lázaro e os encontros de Jesus separadamente com as duas irmãs. Em toda a primeira parte do capítulo, fica bem claro que Jesus esperou propositalmente o tempo necessário para que Lázaro morresse, apesar de amá-lo, pois sabia que Deus queria ser glorificado através de sua ressurreição. Ao se encontrarem com Jesus as duas dizem a mesma coisa: “Senhor, se tu estiveras aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11.21,32). A diferença das duas e do relacionamento de Jesus com elas fica bem clara na reação diferenciada de Jesus a esta mesma pergunta.

Com Marta ele desenvolveu uma discussão teológica sobre a ressurreição, mostrando que ele é a ressurreição em pessoa e que não há diferença entre ele ressuscitar alguém agora ou no último dia. Em alguns momentos parece que Marta tem fé pois diz: “Mesmo agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá” (Jo 11.22) e afirma: “Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (Jo 11.27).

Portanto, a discussão teológica foi importante, mas na hora “H”, quando Jesus pediu para retirarem a pedra da boca do sepulcro, Marta demonstrou que realmente não cria: “Senhor, já cheira mal, porque está morto há quatro dias” (Jo 11.39). Este é o problema com a maioria das discussões teológicas nas quais os homens adoram se envolver. É claro que é importante definir a verdade e distingui-la da mentira, mas na hora “H”, a teologia certa não resolve. É necessário algo mais.

Com Maria, a reação de Jesus foi diferente. Apesar de ser Filho de Deus e de saber antecipadamente tudo o que aconteceria, ele não teve palavras para lhe responder. O problema dela não era teológico, mas emocional. Não adiantaria ficar dando explicações sobre o porquê da sua demora em vir ou sobre o seu propósito de ressuscitar Lázaro. Maria estava além do poder das palavras e das explicações lógicas. E quando Jesus a viu neste estado a chorar e os outros com ela a chorarem também, o texto diz que ele “comoveu-se em espírito, e perturbou-se” (Jo 11.33). Em seguida, pediu para ver onde o haviam posto e quando chegou lá encontramos uma das frases mais poderosas e re- veladoras da Bíblia: “Jesus chorou” (Jo 11.35). Deus encarnado chorou! O Todo-Poderoso e Onisciente Deus chorou! Existe algo além de teologia e além de serviço e projetos. Existe relacionamento e amor!

O plano de Deus continuava de pé bem como todas as verdades teológicas e todos os seus projetos na vida de Jesus e de Lázaro e suas irmãs. Mas por baixo e por detrás de tudo isto, existia algo mais forte, mais profundo e mais importante. Deus é amor! Ele não é um supercomputador ou uma filosófica “Causa Primordial”. Ele é uma pessoa que pode ser movida e tocada por outras pessoas. Sem perder sua soberania, ele consegue ficar triste com o que nos entristece e se alegrar com o que nos alegra. Ele tem prazer em compartilhar nossos sentimentos e emoções, sabendo que as amizades formadas neste nível formam ligações muito mais profundas e duradouras. Oxalá que nas igrejas hoje houvesse menos teólogos e mais amigos, menos conselheiros profissionais e mais pessoas genuínas prontas a admitir que não têm todas as respostas ou soluções e dispostas a sofrer juntas com as outras. Quantas vezes respondemos a situações angustiantes com chavões e fórmulas prontas ao invés de chorarmos com os que choram!

O perfil de Marta, cheia de praticidade e pragmatismo, cheia de boas obras e bons argumentos teológicos, é importante porém insuficiente. Precisamos aprender como ir além das palavras e das declarações da verdade para sentir os sentimentos de Deus e do mundo ao nosso redor. Precisamos aprender a nos deixar comover pelos sofrimentos alheios, porque é a partir daí que Deus começará a se manifestar ao mundo outra vez e o poder da ressurreição voltará a estar disponível na terra.

O texto continua dizendo: “Jesus, pois, comovendo-se outra vez, profundamente, foi ao sepulcro…” (Jo 11.38). A partir desse momento, o processo da ressurreição de Lázaro foi acionado. Ele mandou tirar a pedra contra as objeções de Marta. Orou, gritou para Lázaro sair e este obedeceu! Lembre- se o que falamos sobre o cumprimento dos propósitos de Deus. Deus tem propósitos tão definidos e claros que podem ser preditos, mas só podem ser cumpridos num contexto de relacionamento entre o homem e Deus. Jesus sabia que Lázaro seria ressuscitado mas não sabia como isto aconteceria. Ele não sabia que ficaria emocionado com o sofrimento de Maria e de seus amigos e que choraria. Não sabia a ordem dos encontros com as duas irmãs e o desenrolar dos acontecimentos. Apesar de ter certeza o tempo todo do desfecho final, ele se envolveu emocionalmente com o processo, com as reações das duas irmãs e com suas próprias reações. É isto que torna a vida com Deus tão emocionante!

Trecho retirado da revista "Impacto", Editorial: 15.  Para ler o artigo completo  "O papel da mulher no plano cósmico de Deus", acesse: https://www.revistaimpacto.com.br/o-papel-da-mulher-no-plano-cosmico-de-deus

Paz e Graça, 
Priscila Grazielle
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